quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Entrevista com Rita Fernandes - Presidente da Sebastiana


Rita Fernandes - Presidente da Sebastiana

“A prefeitura tem propriedade e deve zelar pelos

espaços públicos, mas isso não quer dizer,

que ela seja a que a dona dos blocos”


O carnaval de rua do Rio de Janeiro vem passando por grandes transformações. A cada ano, os blocos se deparam com uma surpresa inesperada. Em 2010 não é diferente: os blocos estão sob a disciplina do “Choque da Ordem” do prefeito Eduardo Paes e de certa forma acuados com a força da AmBev, que fechou contrato de patrocínio com a prefeitura e tenta, de todas as maneiras, se impor sobre os blocos. Pelo que se viu até aqui nos desfiles das ruas realizados, nesse período que antecede o carnaval, a empresa que domina o mercado vem exagerando em seu marketing, impondo a cor azul da cerveja Antarctica entre os foliões. O que fazer contra essas interferências externas que podem tirar a alegria e a espontaneidade do carnaval?
Entidade mais representativa dos blocos carnavalescos do Rio, a Sebastiana –Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade –, reúne os 13 dos principais blocos desses bairros. Criada em 2000, a entidade é presidida pela jornalista Rita Fernandes, que concedeu entrevista ao Jornal Capital Cultural e esclareceu pontos importantes sobre o funcionamento da agremiação. Falou também sobre a relação da entidade com a Prefeitura e com empresas que sempre se dispõem a patrocinar os blocos.
Rita é uma dessas pessoas absolutamente envolvidas e apaixonadas pelo carnaval de rua. Em 1995, foi uma das fundadoras do bloco Imprensa que eu Gamo, que desfila em Laranjeiras, mas antes disso já era frequentadora do Bloco de Segunda, Barbas e Simpatia É Quase Amor. O trabalho que vem realizando à frente da Sebastiana desde 2004, ao que tudo indica agrada, pois, embora a eleição da entidade seja anual, ela foi reeleita por seis anos consecutivos.

Capital Cultural – Obviamente, o carnaval de rua do Rio precisava ser organizado, pois a coisa caminhava para um lugar muito perigoso. Hoje, o temor de muitos são os excessos, com ordem demais e outras medidas que podem tirar a espontaneidade da festa e nos conduzir a um carnaval perigoso, feito de abadás, cordões de isolamento e coisas do gênero. Você teme que isso possa acontecer?
Rita – Este é um grande risco que o carnaval carioca corre, pois se não tivermos muita resistência e não ficarmos atentos podemos chegar a esse lugar. Seguramente, um dos maiores problemas que nosso carnaval enfrenta é o fato de muitas pessoas vislumbrarem uma possibilidade de negócio, de ganhar dinheiro e, por essa razão, pretenderem fazer do carnaval do Rio algo parecido com o carnaval da Bahia. Essa percepção é um grande erro, porque o carnaval do Rio só tem valor porque é exatamente como é. Se essa transformação acontecer, nosso carnaval fica desfigurado e perde sua espontaneidade. Quando precisamos nos preocupar com o “Choque de Ordem”, pelos excessos que poderão ser cometidos, nos desviamos de nossa principal preocupação, que é a ameaça por parte desses grupos comerciais, que tentam se impor de todas as formas. A Prefeitura, pelo menos, tem se mostrado aberta ao diálogo.

Capital Cultural – A prefeitura é a dona do espaço público, mas não é proprietária dos blocos. E, nesse contexto, surge uma contradição, pois a empresa patrocinadora se coloca nesse vácuo entre a prefeitura e os blocos e tenta ditar as regras. Essa relação é complicada, pois parece que eles estão patrocinando as agremiações e teoricamente podem fazer o que querem. Como vocês estão lidando com isso?
Rita – É bom que isso fique claro. A empresa que fez parceria com a Prefeitura não patrocina os blocos da Sebastiana. Não temos nada a ver com o que foi estabelecido entre a prefeitura e a patrocinadora e não ganhamos nada com isso. Eles patrocinam a prefeitura, o que é muito diferente. O patrocinador precisa ter consciência de que não pode agredir, não pode tentar se impor. Precisa compreender que não podem exacerbar, pois já existem espaços demais onde podem exibir sua marca. Precisa entender que o que chamam de “ativação da marca” não pode ser feita além da medida. O marketing tem que ser algo mais sutil, pois tem um efeito muito melhor. Todo mundo pode chegar ao final do carnaval e saber que a prefeitura fez um acordo com a Antarctica e que essa marca foi a patrocinadora oficial do carnaval de rua de 2010. Não é necessário que tentem impor suas cores sobre os blocos, sobre as ruas, sobre a cidade. Em se tratando dos blocos, eles não podem e não têm o direito de descaracterizar as cores das agremiações. Acho até que eles levariam mais vantagem se fizessem com que a marca aparecesse de uma forma mais discreta, menos agressiva. É preciso ficar claro que a Prefeitura é dona dos espaços públicos, mas não tem propriedade sobre os blocos.

Capital Cultural – A Prefeitura, de certa forma, tem razão em tentar organizar a festa, pois em anos anteriores o que vimos em alguns blocos foi uma falta total de civilidade. É inegável o crescimento desordenado dos blocos. Você já parou para pensar nesta questão?
Rita – Esse fenômeno dos blocos é uma caixinha de surpresas e não dá para fazer previsões em relação ao futuro. Tenho medo que o número de blocos aumente excessivamente. Colocar um bloco na rua é muito complicado, exige muita responsabilidade e seriedade. Quem coloca um bloco na rua tem responsabilidade sobre possíveis problemas que venham a ocorrer. Acho que vai chegar um momento que esse movimento de crescimento dos blocos vai se acomodar. A cidade comporta um determinado número de blocos, mas ocorre que ninguém sabe exatamente esse número. Os blocos registrados na prefeitura não correspondem à realidade. Seguramente, muitos blocos não buscam esse registro e não estão preocupados com isso. Hoje, quem faz a festa cuida apenas da espontaneidade da festa; minha preocupação nisso tudo é o surgimento de blocos com cordão de isolamento e abadás. Isso, de fato, descaracterizaria nosso carnaval e seria muito ruim. Não acredito que o carioca aceite e muito menos esteja disposto a adotar esse carnaval...

Capital Cultural – A Sebastiana reúne alguns importantes blocos do Centro, Santa Teresa e Zona Sul, e por isso é vista por algumas pessoas como uma entidade elitista, que só cuida de seus próprios interesses. Como você analisa essas críticas?
Rita – É natural que cuidemos de nossos interesses, o que já representa muita coisa. O que algumas pessoas não sabem é que, além de nossos blocos, nos preocupamos também com o bem-estar da sociedade e com o carnaval de rua como um todo. A maior prova disso é o fato de sempre após o carnaval realizarmos o Seminário “Desenrolando a Serpentina”, que discute os problemas surgidos durante o carnaval e busca mecanismos para que não se repitam no próximo ano. As pessoas que estão na Sebastiana não são profissionais do samba e nem ganham dinheiro com isso. Temos nossas profissões, nossas ocupações e o que nos une é o fato de sermos pessoas apaixonadas pelo carnaval.

Capital Cultural – Sobre essa crítica a um suposto elitismo por parte da Sebastiana?
Rita – Não concordo com isso. A Sebastiana não reúne a elite, pois esse não é nosso objetivo. A Sebastiana reúne os blocos com um pouco mais de tradição que, num dado momento, perceberam que precisavam se organizar. Elitistas? Isso não corresponde à verdade. Somos pessoas que gostamos dessa festa e percebemos que uma das maneiras de fazermos com que os blocos se mantivessem fiéis às suas tradições e não perdessem a força que representavam era a organização. A partir daí vieram as críticas. Como fomos a primeira entidade a se organizar, decidimos não aceitar novos blocos associados. Não abrir a Associação não representa que não respeitamos o trabalho das outras agremiações. Quando a Sebastiana surgiu, não tínhamos um domínio exato do que representava a entidade, precisávamos amadurecer, ganhar experiência. Tudo foi sendo lapidado com o tempo, principalmente em razão da diversidade e da realidade de cada um dos blocos que faz parte da entidade. Precisávamos de um tempo para saber exatamente o que éramos e o que representávamos. O que muitos viram como elitismo era, na verdade, um pouco de insegurança, pois não nos sentíamos competentes para isso.

Capital Cultural – Apesar da diversidade e da diferença entre os blocos, a Sebastiana acabou dando certo. Não se percebe, nas pessoas ligadas aos blocos da Associação, segundas intenções ou interesses pessoais.
Rita – O que percebemos desde o início é que o propósito de alguns blocos que nos procuravam era muito diferente dos nossos. Em razão disso, preferimos ser chamados de elitistas ou “de clubinho”, mantendo aquilo que nos une, a permitir que entrem na entidade pessoas cujo verdadeiro propósito desconhecemos. Sabemos que no carnaval existem muitos interesses políticos e comerciais e isso não interessa ao conjunto da Sebastiana. Não temos rigorosamente nada com os blocos que possuem esse tipo de finalidade, mas é preciso ficar claro que essa não é a nossa praia. Não temos uma natureza política ou comercial e, apesar das dificuldades que enfrentamos, conseguimos manter nossas características. Existem blocos que gostaríamos que participassem da Sebastiana, pois fazem um trabalho muito coerente, legal e respeitoso. Se há uma coisa clara entre nós é que não temos o desejo de ser a “Liga dos Blocos do Rio de Janeiro”. Isso não nos interessa mesmo.

Capital Cultural – Como começou tudo isso?
Rita – Começou no Bip Bip em Copacabana. O Jornal do Brasil havia pautado uma matéria sobre os blocos de rua – primeira de uma série que viria a partir dali – e sugerido que o ponto de encontro para entrevistas e fotos fosse no Bip. No encontro estavam representantes do Simpatia É Quase Amor, Imprensa Que Eu Gamo, Bloco do Barbas, Escravos da Mauá, Bloco de Segunda, Suvaco do Cristo, Carmelitas, Meu Bem Volto Já, Bip Bip e Clube do Samba. Terminada a matéria com o JB ficamos conversando e sentimos a necessidade de encontrar, em conjunto, soluções que viabilizassem os desfiles que começavam a crescer.


Formam a Sebastiana os seguintes blocos:
Bloco da Ansiedade (Laranjeiras)
Bloco do Barbas (Botafogo)
Bloco das Carmelitas (Santa Teresa)
Bloco de Segunda (Botafogo)
Bloco Virtual (Ipanema)
Escravos da Mauá (Centro)
Gigantes da Lira (Laranjeiras)
Imprensa que eu Gamo (Laranjeiras)
Meu Bem,Volto Já! (Leme)
Que Merda É Essa? (Ipanema)
Simpatia É Quase Amor (Ipanema)
Suvaco do Cristo (Jardim Botânico)

2 comentários:

Silvana Nunes .'. disse...

Gostei daqui.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja a vocês uma boa semana.
Saudações Florestais !
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Natan Pacanowski disse...

voce e muito linda.Deus estava muito inspiraDO QUANDOFEZ VOCE.S3E FOR SOLTEIRA CASO COM VOCE NATANTURFE#MAIL.COM.MANTENHA CONTATO

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