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domingo, 23 de maio de 2010

Entrevista Elisa Rosa Brandão da Silva Presidente da Associação de Moradores do Morro dos Prazeres


“Só há dois dias no ano em que nada pode ser feito: Um se chama ontem e o outro amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer. E, principalmente viver...”
Esta frase atribuída a Gandhi e estampada em um cartaz amarelado e envelhecido, fixado na parede da simples porém, funcional. A Associação do Morro dos Prazeres transmete exatamente a real tônica das necessidades comunitárias: as ações precisam ser feitas hoje, agora, já.
À frente desta instuição, Elisa Rosa Brandão da Silva uma mulher de 49 anos, simples, porém simpática, bem articulada e que procura se manter equilibrada; possivelmente para não mostrar fragilidade e desesperança à comunidade. Enquanto atendia aos muitos cidadões que entravam e saiam da Associação, cujo funcionamento lembra um verdadeiro quartel general, atendendendo jornalistas, moradores, telefonemas de políticos, religiosos, representantes de ONGs, estudantes e benévolos doadores. Em dias de crise, Elisa chega à Associação normalmente às 6 horas da manhã e não tem hora para sair.
Nascida em Brasília, Elisa pegou a contra-mão da história e veio para o Rio, há 19 anos e há 16 mora no Morro dos Prazeres. Mãe de 4 filhos a ex-secretária se aproximou da associação, especificamente para ajudar a organização de documentos e arquivos. Sua eficiência e capacidade exemplares, desencadeou seu lançamento, há quatro anos, à presidência da entidade. Ela não esconde que esse é um dos momentos mais delicados de sua vida, pois a dor que presencia, é a dor diária de seus amigos e entes queridos. Este fato exige que Elisa, seja ainda mais forte para não desmoronar:
“...é diferente de vocês que sabem da tragédia pelos meios de comunicação ou que vem aqui buscar informações e depois retornam para suas casas. A dor com a qual convivo e que presencio é a dor de pessoas amigas, de pessoas queridas com as quais estou ligada todos os dias. Pessoas que vi nascer e pessoas mais idosas que me acolheram aqui quando cheguei. Não posso negar que tenho sofrido muito com tanta tragédia e tantos acontecimentos ruins, mas temos que ir adiante. Foi-me confiada essa missão e vou cumpri-la.”



Capital Cultural – Passada a tempestade, o que mais os atormenta neste momento? Ao que parece, é esse desejo do Prefeito em transferir os habitantes do Morro dos Prazeres para o antigo prédio da Frei Caneca, onde serão construídos apartamentos de dois quartos. Como vocês encaram esta possibilidade?
Eloisa - Esta discussão envolve muitas questões, primeiro é saber se os moradores, aqueles que não moram em área de risco, desejam se mudar. Pelo que observo em seus comportamentos, muita gente não deseja sair daqui. De fato, é inconcebível querer tirar as pessoas cujas casas não correm qualquer tipo de risco. Em relação às pessoas que estão em área de risco, estas sim, entendem a gravidade do problema e ai não se trata de querer ou não sair, elas sabem que terão que sair. Em toda esta discussão o que precisa ficar claro, é que apenas uma pequena parcela dos moradores encontram-se em áreas de risco. Não há razão para se querer remover todos, isso não faz nenhum sentido. A remoção é uma porposta absurda, e desumana.

Capital Cultural – Você, enquanto presidente da associação, foi comunicada do desejo do prefeito Eduardo Paes em realizar estas remoções?
Elisa – Não fui comunicada por ninguém. No dia da tragédia ainda estávamos aqui tentando descobrir quantas pessoas haviam desaparecido e quantas pessoas perderam suas casas, quando o boato de que toda comunidade seria removida começou. O prefeito Eduardo Paes não deu uma notícia, não deu uma informação, ele mandou um recado pelos meios de comunicação. Para se ter uma idéia de sua insensibilidade, sequer apareceu aqui no Morro para prestar solidariedade aos moradores e às vitimas da chuva.

Capital Cultural – Pelo que se constata, há um comentário entre os habitantes que preocupa e assusta. Muitos na comunidade estão convencidos de que remoção é sinônimo de exploração imobiliária. Você acredita mesmo que possa haver pessoas interessadas na desocupação para que o Morro dos Prazeres se transforme em área de lazer e um local para a visitação de turistas?
Eloisa – Não sei... Onde há fumaça há fogo e ninguém inventaria um boato destes, mas a verdade é que na comunidade o assunto vem sendo cada vez comentado, e com isto, obviamente a desconfiança aumenta. Enquanto presidente da associação prefiro não me manifestar sobre este assunto, porque ele é muito complexo. Mas, enquanto moradora e pessoa que ama este lugar tenho que admitir uma coisa: o Morro dos Prazeres é um filé mingnon. Além de bem localizado, por estar próximo à cidade e ter saída tanto para o Centro, Zona Norte e Zona Sul, tem uma visão da cidade encantadora. Ver a cidade daqui é algo para privilegiados. Se olharmos do ponto de vista da exploração imobiliária, seria um local ideal para os turistas ou mesmo para fazer um mirante, como se comenta no morro.

Capital Cultural – Na surdina e de forma muito discreta, os moradores comentam também que há um temor nesta transferência para os prédios que serão construídos na Frei Caneca, em decorrência daquela área ser dominada por outra facção. Há alguma verdade nisto?
Eloisa – Todo mundo sabe e está estampado todos os dias nos jornais que a cidade é divida em facções. Pelo que me informaram, aquela área da Frei Caneca é dominada pela ADA (Amigos dos Amigos) e pelo Terceiro Comando, que são inimigos do Comando Vermelho. Todos também sabem que muitas das comunidades de Santa Teresa são dominadas pelo Comando Vermelho e, se tivermos que mudar para lá, de fato, ficaremos expostos. Seremos sempre tratados como “alemães”.

Capital Cultural – O que pode acontecer se estas mudanças forem de fato efetuadas?
Eloisa – Quem sabe? Somos taxados como inimigos. A vida numa comunidade não é tão romântica e não tem nada haver com as comunidades cinematográficas e construídas milimetricamente que aparecem na televisão. A vida numa comunidade é dura, uma realidade bem pior que muita gente possa imaginar.

Capital Cultural – Mas a segurança das pessoas deveria ser controlada pelo poder público?
Eloisa – Essa visão é romântica e irreal. Muita coisa deveria ser assumida pelo poder público como transporte, educação, saúde, mas não é isso que acontece. Não sejamos inocentes e ingênuos, se Michael Jackson, que era um astro internacional teve que negociar e pagar pedágio para os donos do morro para realizar filmagens, é porque no morro as coisas são mais complicadas. No morro, em muitos momentos é um verdadeiro vale tudo.

Capital Cultural – A classe média idolatra as favelas, referenciam o morro e sabemos de alguns casos de meninas e meninos de classe média, que rompem com a família para passar uns tempos no morro. Em uma situação de tragédia como essa, estes meninos aparecem para prestar solidariedade?
Eloisa - Falando muito francamente classe média e favelado são águas que não se misturam. São realidades diferentes, com formação diferente. Essa história de referenciar o morro, de idolatrar o morro é conversa para quem faz uma visitinha, vem passar uma temporada no morro como você bem colocou. A vida aqui é dura, é difícil e a classe média não está acostumada a dificuldades. Se apareceu alguém da classe média, sim alguns meninos estudantes de universidades até vieram, se mostraram solidários e somos gratos por esse carinho. Observo estes meninos é sempre falo comigo mesma: Favela não é um lugar romântico e muito menos para se fazer piquenique.

Capital Cultural – Nesses momentos aparecem muitos benfeitores e pessoas cheias de discursos. Com quem é pior conviver, com evangélicos ou políticos?
Eloisa – Os políticos representam a pior classe para você conviver e ter que suportar. Os caras ganham para isto, são remunerados para isto e, aparecem aqui cheios de assessores para mostrar solidariedade com a tragédia alheia. É um absurdo, mas ganham para serem solidários. Tentam fazer num momento de desespero o que não fazem durante todo um mandato. Eles deveriam ter vergonha e perceber que a condição de vida que nos é imposta nos morros, vivendo à margem de direitos básicos, já é em si uma tragédia. É claro que existem aqueles políticos que não são solidários de ocasião e sempre aparecem e demonstram interesse nos problemas que enfrentamos, mas a maioria é oportunismo puro.

Capital Cultural – Obviamente a chuva não pode ser culpada pela tragédia que aconteceu aqui no Morro dos Prazeres. A quem podemos culpar?
Eloisa – A culpada de tudo isso é a irresponsabilidade tanto da Prefeitura, quando de alguns moradores que fizeram casas sem estrutura, em lugares indevidos. As pessoas não podem comprar uma geladeira, um colchão, uma cama nova e colocar os utensílios velhos em qualquer lugar. Tem que descer com isto, encontrar um lugar que não se transforme em perigo para a própria comunidade. Não adianta os órgãos de a Prefeitura demonstrar perplexidade e espanto, pois há dez anos eles concederam um laudo que existe desde o início do Projeto Favela Bairro, dando legalidade a estas casas. Não podemos querer tirar as responsabilidades que cabem a cada um. A questão é a seguinte, se as casas são ilegais qual a razão do BIRD – Banco Internacional de Desenvolvimento-, em parceria com a Prefeitura ter liberado o dinheiro para a reestruturação da comunidade, se há dez anos existeeste laudo como podem querer interditar agora? - Não discuto e nem falo aqui de um Prefeito ou de outro, falo da estrutura governamental. Falta coerência, inteligência, zelo e preocupação para com a cidade e principalmente para com as comunidades. Enquanto estas pessoas governarem preocupadas em se perpetuarem no poder, estaremos sujeitos a essas coisas, porque tudo o que fazem não é pensando na população, na sociedade, mas sim no voto, nas próximas eleições, em sua perpetuação.

Capital Cultural – Quando começou a ocupação do Morro dos Prazeres?
Eloisa - O registro da associação é de 1968, mas os primeiros moradores chegaram aqui a mais de 60 anos. A comunidade já esta em sua quinta ou sexta geração. É bom que as coisas não sejam confundidas como querem algumas autoridades e alguns meios de comunicação. Ocupação não representa invasão. Somos moradores e não invasores. Não podem dizer que moramos aqui, nos fixamos aqui porque usurpamos alguma coisa de alguém. Moramos aqui com autorização, o conhecimento e o reconhecimento da prefeitura e do Governo do Estado. Em muitos momentos a coisa é colocada como se as pessoas que moram nas comunidades são pessoas irresponsáveis, marginais e invasoras de propriedade alheia. Os meios de comunicação precisam ouvir nossas autoridades, mas não podem se esquecer que nós também temos nossa versão para os fatos.

Capital Cultural - Mas o Moro dos Prazeres, principalmente nesses dez últimos anos, acabou incentivando outras ocupações em toda essa área...
Eloisa – Não sei se exatamente nos últimos dez anos, ou se um pouco antes, mas a verdade é outras comunidades surgiram em torno do Morro dos Prazeres. Insisto apenas num ponto: estas comunidades surgiram com o conhecimento e a autorização de nossos governantes. As pessoas precisam morar, precisam de uma casa, de uma lar e como a vida esta difícil procuram as comunidades. Tem que se acabar com essa distorção de que lar é só casa de pessoas ricas e de classe média. Aqui também constituímos famílias, somos pessoas trabalhadoras e que colaboram com o sistema de arrecadação desta cidade e deste Estado. Não podem nos tratar como se fossemos marginais. Tudo o que queremos é sermos respeitados. Se o poder público não zela pelas comunidades mais carentes sempre estaremos sujeitos a esse tipo de tragédia. Enquanto cidadãos temos direito a transportes decentes, escolas no bairro, sistema de saúde, mas nada disso é levado a sério. As comunidades só aparecem quando existe tragédia e quando nossos governantes fazem destas peças de publicidade para dizer que estão governando bem. A maior contradição disto tudo, é que o Morro dos Prazeres já foi usado como uma peça publicitária e tratado no projeto Favela-bairro, como uma comunidade exemplo.

Capital Cultural – E o futuro?
Eloisa – Temos que lutar agora. Primeiro por todas as pessoas atingidas, depois contra esta tentativa de remoção. Diria a você o seguinte: Nosso futuro é agora. O futuro a Deus pertence...

Capital Cultural – Como naquela frase do Gandhi que esta ali dizendo que o momento é agora?
Eloisa – Até tinha me esquecido desta frase, mas é exatamente isto. Nossa dor e nossa preocupação são com o agora. Nossa batalha é agora.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Entrevista com Rita Fernandes - Presidente da Sebastiana


Rita Fernandes - Presidente da Sebastiana

“A prefeitura tem propriedade e deve zelar pelos

espaços públicos, mas isso não quer dizer,

que ela seja a que a dona dos blocos”


O carnaval de rua do Rio de Janeiro vem passando por grandes transformações. A cada ano, os blocos se deparam com uma surpresa inesperada. Em 2010 não é diferente: os blocos estão sob a disciplina do “Choque da Ordem” do prefeito Eduardo Paes e de certa forma acuados com a força da AmBev, que fechou contrato de patrocínio com a prefeitura e tenta, de todas as maneiras, se impor sobre os blocos. Pelo que se viu até aqui nos desfiles das ruas realizados, nesse período que antecede o carnaval, a empresa que domina o mercado vem exagerando em seu marketing, impondo a cor azul da cerveja Antarctica entre os foliões. O que fazer contra essas interferências externas que podem tirar a alegria e a espontaneidade do carnaval?
Entidade mais representativa dos blocos carnavalescos do Rio, a Sebastiana –Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade –, reúne os 13 dos principais blocos desses bairros. Criada em 2000, a entidade é presidida pela jornalista Rita Fernandes, que concedeu entrevista ao Jornal Capital Cultural e esclareceu pontos importantes sobre o funcionamento da agremiação. Falou também sobre a relação da entidade com a Prefeitura e com empresas que sempre se dispõem a patrocinar os blocos.
Rita é uma dessas pessoas absolutamente envolvidas e apaixonadas pelo carnaval de rua. Em 1995, foi uma das fundadoras do bloco Imprensa que eu Gamo, que desfila em Laranjeiras, mas antes disso já era frequentadora do Bloco de Segunda, Barbas e Simpatia É Quase Amor. O trabalho que vem realizando à frente da Sebastiana desde 2004, ao que tudo indica agrada, pois, embora a eleição da entidade seja anual, ela foi reeleita por seis anos consecutivos.

Capital Cultural – Obviamente, o carnaval de rua do Rio precisava ser organizado, pois a coisa caminhava para um lugar muito perigoso. Hoje, o temor de muitos são os excessos, com ordem demais e outras medidas que podem tirar a espontaneidade da festa e nos conduzir a um carnaval perigoso, feito de abadás, cordões de isolamento e coisas do gênero. Você teme que isso possa acontecer?
Rita – Este é um grande risco que o carnaval carioca corre, pois se não tivermos muita resistência e não ficarmos atentos podemos chegar a esse lugar. Seguramente, um dos maiores problemas que nosso carnaval enfrenta é o fato de muitas pessoas vislumbrarem uma possibilidade de negócio, de ganhar dinheiro e, por essa razão, pretenderem fazer do carnaval do Rio algo parecido com o carnaval da Bahia. Essa percepção é um grande erro, porque o carnaval do Rio só tem valor porque é exatamente como é. Se essa transformação acontecer, nosso carnaval fica desfigurado e perde sua espontaneidade. Quando precisamos nos preocupar com o “Choque de Ordem”, pelos excessos que poderão ser cometidos, nos desviamos de nossa principal preocupação, que é a ameaça por parte desses grupos comerciais, que tentam se impor de todas as formas. A Prefeitura, pelo menos, tem se mostrado aberta ao diálogo.

Capital Cultural – A prefeitura é a dona do espaço público, mas não é proprietária dos blocos. E, nesse contexto, surge uma contradição, pois a empresa patrocinadora se coloca nesse vácuo entre a prefeitura e os blocos e tenta ditar as regras. Essa relação é complicada, pois parece que eles estão patrocinando as agremiações e teoricamente podem fazer o que querem. Como vocês estão lidando com isso?
Rita – É bom que isso fique claro. A empresa que fez parceria com a Prefeitura não patrocina os blocos da Sebastiana. Não temos nada a ver com o que foi estabelecido entre a prefeitura e a patrocinadora e não ganhamos nada com isso. Eles patrocinam a prefeitura, o que é muito diferente. O patrocinador precisa ter consciência de que não pode agredir, não pode tentar se impor. Precisa compreender que não podem exacerbar, pois já existem espaços demais onde podem exibir sua marca. Precisa entender que o que chamam de “ativação da marca” não pode ser feita além da medida. O marketing tem que ser algo mais sutil, pois tem um efeito muito melhor. Todo mundo pode chegar ao final do carnaval e saber que a prefeitura fez um acordo com a Antarctica e que essa marca foi a patrocinadora oficial do carnaval de rua de 2010. Não é necessário que tentem impor suas cores sobre os blocos, sobre as ruas, sobre a cidade. Em se tratando dos blocos, eles não podem e não têm o direito de descaracterizar as cores das agremiações. Acho até que eles levariam mais vantagem se fizessem com que a marca aparecesse de uma forma mais discreta, menos agressiva. É preciso ficar claro que a Prefeitura é dona dos espaços públicos, mas não tem propriedade sobre os blocos.

Capital Cultural – A Prefeitura, de certa forma, tem razão em tentar organizar a festa, pois em anos anteriores o que vimos em alguns blocos foi uma falta total de civilidade. É inegável o crescimento desordenado dos blocos. Você já parou para pensar nesta questão?
Rita – Esse fenômeno dos blocos é uma caixinha de surpresas e não dá para fazer previsões em relação ao futuro. Tenho medo que o número de blocos aumente excessivamente. Colocar um bloco na rua é muito complicado, exige muita responsabilidade e seriedade. Quem coloca um bloco na rua tem responsabilidade sobre possíveis problemas que venham a ocorrer. Acho que vai chegar um momento que esse movimento de crescimento dos blocos vai se acomodar. A cidade comporta um determinado número de blocos, mas ocorre que ninguém sabe exatamente esse número. Os blocos registrados na prefeitura não correspondem à realidade. Seguramente, muitos blocos não buscam esse registro e não estão preocupados com isso. Hoje, quem faz a festa cuida apenas da espontaneidade da festa; minha preocupação nisso tudo é o surgimento de blocos com cordão de isolamento e abadás. Isso, de fato, descaracterizaria nosso carnaval e seria muito ruim. Não acredito que o carioca aceite e muito menos esteja disposto a adotar esse carnaval...

Capital Cultural – A Sebastiana reúne alguns importantes blocos do Centro, Santa Teresa e Zona Sul, e por isso é vista por algumas pessoas como uma entidade elitista, que só cuida de seus próprios interesses. Como você analisa essas críticas?
Rita – É natural que cuidemos de nossos interesses, o que já representa muita coisa. O que algumas pessoas não sabem é que, além de nossos blocos, nos preocupamos também com o bem-estar da sociedade e com o carnaval de rua como um todo. A maior prova disso é o fato de sempre após o carnaval realizarmos o Seminário “Desenrolando a Serpentina”, que discute os problemas surgidos durante o carnaval e busca mecanismos para que não se repitam no próximo ano. As pessoas que estão na Sebastiana não são profissionais do samba e nem ganham dinheiro com isso. Temos nossas profissões, nossas ocupações e o que nos une é o fato de sermos pessoas apaixonadas pelo carnaval.

Capital Cultural – Sobre essa crítica a um suposto elitismo por parte da Sebastiana?
Rita – Não concordo com isso. A Sebastiana não reúne a elite, pois esse não é nosso objetivo. A Sebastiana reúne os blocos com um pouco mais de tradição que, num dado momento, perceberam que precisavam se organizar. Elitistas? Isso não corresponde à verdade. Somos pessoas que gostamos dessa festa e percebemos que uma das maneiras de fazermos com que os blocos se mantivessem fiéis às suas tradições e não perdessem a força que representavam era a organização. A partir daí vieram as críticas. Como fomos a primeira entidade a se organizar, decidimos não aceitar novos blocos associados. Não abrir a Associação não representa que não respeitamos o trabalho das outras agremiações. Quando a Sebastiana surgiu, não tínhamos um domínio exato do que representava a entidade, precisávamos amadurecer, ganhar experiência. Tudo foi sendo lapidado com o tempo, principalmente em razão da diversidade e da realidade de cada um dos blocos que faz parte da entidade. Precisávamos de um tempo para saber exatamente o que éramos e o que representávamos. O que muitos viram como elitismo era, na verdade, um pouco de insegurança, pois não nos sentíamos competentes para isso.

Capital Cultural – Apesar da diversidade e da diferença entre os blocos, a Sebastiana acabou dando certo. Não se percebe, nas pessoas ligadas aos blocos da Associação, segundas intenções ou interesses pessoais.
Rita – O que percebemos desde o início é que o propósito de alguns blocos que nos procuravam era muito diferente dos nossos. Em razão disso, preferimos ser chamados de elitistas ou “de clubinho”, mantendo aquilo que nos une, a permitir que entrem na entidade pessoas cujo verdadeiro propósito desconhecemos. Sabemos que no carnaval existem muitos interesses políticos e comerciais e isso não interessa ao conjunto da Sebastiana. Não temos rigorosamente nada com os blocos que possuem esse tipo de finalidade, mas é preciso ficar claro que essa não é a nossa praia. Não temos uma natureza política ou comercial e, apesar das dificuldades que enfrentamos, conseguimos manter nossas características. Existem blocos que gostaríamos que participassem da Sebastiana, pois fazem um trabalho muito coerente, legal e respeitoso. Se há uma coisa clara entre nós é que não temos o desejo de ser a “Liga dos Blocos do Rio de Janeiro”. Isso não nos interessa mesmo.

Capital Cultural – Como começou tudo isso?
Rita – Começou no Bip Bip em Copacabana. O Jornal do Brasil havia pautado uma matéria sobre os blocos de rua – primeira de uma série que viria a partir dali – e sugerido que o ponto de encontro para entrevistas e fotos fosse no Bip. No encontro estavam representantes do Simpatia É Quase Amor, Imprensa Que Eu Gamo, Bloco do Barbas, Escravos da Mauá, Bloco de Segunda, Suvaco do Cristo, Carmelitas, Meu Bem Volto Já, Bip Bip e Clube do Samba. Terminada a matéria com o JB ficamos conversando e sentimos a necessidade de encontrar, em conjunto, soluções que viabilizassem os desfiles que começavam a crescer.


Formam a Sebastiana os seguintes blocos:
Bloco da Ansiedade (Laranjeiras)
Bloco do Barbas (Botafogo)
Bloco das Carmelitas (Santa Teresa)
Bloco de Segunda (Botafogo)
Bloco Virtual (Ipanema)
Escravos da Mauá (Centro)
Gigantes da Lira (Laranjeiras)
Imprensa que eu Gamo (Laranjeiras)
Meu Bem,Volto Já! (Leme)
Que Merda É Essa? (Ipanema)
Simpatia É Quase Amor (Ipanema)
Suvaco do Cristo (Jardim Botânico)

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