sábado, 14 de maio de 2011

XI Aniversário do Jornal Capital Cultural

Jornal Capital Cultural
festeja seu 11º aniversário e
prem
ia os melhores shows de 2010.


Numa noite tipicamente lapiana, o jornal Capital Cultural comemorou o seu 11º aniversário no último dia 26 de abril e, na ocasião, promoveu a entrega dos prêmios dos melhores shows realizados nas principais casas noturnas do Centro do Rio Antigo em 2010.


A festa aconteceu no Carioca da Gema, uma das mais importantes da Lapa, que, curiosamente, também chegará ao seu décimo primeiro aniversário em julho, tendo colaborado decisivamente neste período para a revitalização do denominado Novo Rio Antigo.


A escolha dos melhores shows do Centro da cidade é realizada pelo jornal Capital Cultural há oito anos, e o corpo de jurados é formado por funcionários de cada uma das casas. Participaram da escolha proprietários, produtores musicais, produtores culturais, garçons, iluminadorese todas as pessoas que direta ou indiretamente têm a possibilidade de acompanhar quase que em sua totalidade os shows.


Aos mestres com carinho

Paulão 7 Cordas e Zé da Velha

recebem Troféu Excelência Musical


O prêmio excelência musical foi concedido a dois dos mais conceituados músicos do cenário lapiano, carioca e brasileiro: Paulão 7 Cordas, que, além de excelente violonista – para muitos o melhor da cidade –, é um dos produtores mais importantes nos últimos anos.

É dele, por exemplo, o trabalho pioneiro de registrar o repertório das velhas guardas, como Mangueira, Portela e Império Serrano. Além disso, participou da orientação musical de trabalhos de grandes sucessos, dentre eles, os discos “Samba de Fé” (Dorina), “Batucando” (Moacyr Luz), “Versátil”, (Nelson Sargento) e Uma Prova de Amor (Zeca Pagodinho).


O segundo prêmio Excelência musical foi concedido a Zé da Velha, que completa este ano 50 anos de carreira. O apelido de Zé da Velha surgiu porque, mesmo com apenas 17 anos, ele já tocava ao lado de figuras como Pixinguinha, Donga e João da Baiana no conjunto Velha Guarda, que existiu até 1958. De Zé da Velha Guarda para Zé da Velha foi um pulo.


Durante a carreira, tocou ao lado de quase todos os grandes mestres da MPB, dentre eles, Jacob do Bandolim, Joel Nascimento, Abel Ferreira, Waldir Azevedo, Copinha e Paulo Moura. Desde o ressurgimento daLapa, já tocou em praticamente em todas as casas, sempre ao lado do fiel amigo e companheiro Silvério Pontes, parceiro há 25 anos, garantia degrandes shows e de excelente qualidade musical.



Troféu “Orgulho Contemporâneo”

empolga e causa emoção


Este ano, o jornal Capital Cultural decidiu criar o prêmio “Orgulho Contemporâneo”, concedido a o cantor e compositor Jards Macalé e ao psiquiatra Paulo Amarante. A partir do próximo ano, os ganhadores deste prêmio serão escolhidos através de votação, sendo concedido às pessoas de destaque na sociedade, como os dois personagens agraciados.

A trajetória profissional de Jards Macalé é admirável por sua obra musical e por sua postura política, já que sempre questionouo autoritarismo e lutou para que tivéssemosum país mais democrático. No período da ditadura militar,por exemplo, era comum agentes da inteligência da polícia baterem na porta dacasa de Macalé e dizer que ele estava muito “assanhadinho” e que seria levado para tomar um banho na Baía da Guanabara.


Conta a lenda que o deputadoRubens Paiva, opositor aos militares e que desapareceu misteriosamente, teria sido jogado de um helicóptero na Baía da Guanabara. Neste período, onde a repressão era um fato comum, pessoas eram tiradas de suas casas e desapareciam. A expressão “dar um passeio na Baía da Guanabara” era motivo de medo e grande temor.


Indignado com as constantes visitas do militares, alugou uma barca que faz a travessia Rio-Niterói, convidou a impresa, muitos amigos, músicos, artistas, intelectuais e os próprios agentes da policia e fez um show de madrugada na Baía da Guanabara. Terminado o show, contou das ameaças que sofria e avisou: “Não precisam me jogar na Baía da Guanabara, eu mesmo pulo” – e se atirou na água gelada.


Outro momento especial na vida do cantor, e importante para a redemocratização, foi quando Jards Macalé organizou e dirigiu o show “O Banquete dos Mendigos”, gravado ao vivo no dia 10 de dezembro de 1973 no Museu de Arte Moderna do Rio Janeiro em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Antes de cada música, era lido um dos artigos dos direitos humanos criado pela ONU. Deste show participaram grandes nomes da música brasileira, como Paulinho da Viola, Jorge dos Santos, Edu Lobo, Chico Buarque, Raul Seixas, MPB 4, Luis Melodia, Milton Nascimento,Dominginhos, Gal Costa,Gonzaguinha, Johnny Alf e outros.

Por sua audácia, coragem e criatividade, Jards Macalé, muito justamente, mereceu o troféu “Orgulho Contemporâneo”.


Outro contemplado com o troféu foi o psiquiatra Paulo Amarante , que da década de 1980 iniciou, juntamente com outros profissionais da área, o “Movimento Antimanicomial no Brasil”. Ao propor mudanças num a estrutura tão fechada, quase intocável, e onde muitos se beneficiavam, Amarante chegou a ser ameaçado e duramente criticado.


Apesar de todas as adversidades, não cedeu, e continuou a sua luta, cuja proposta era acabar com os hospícios, considerados “verdadeiras casas de loucuras etorturas”, com choque elétrico , remédios excessivos e falta de nexo. Isto sem contar a permanente solidão nosquartos e corredores dos hospícios.


Amarante colaborou decisivamente para ruptura doque antes existia, e hoje o Brasil é considerado um dos países mais avançados no que se refere ao tratamento psiquiátrico. A iniciativa deste grupo do qual Amarante fez parte possibilitou o surgimento da inserção de pessoas consideradas portadoras de deficiência mental na sociedade.

Paulo Amarante continua sendo um incentivador da integração dos portadores de qualquer distúrbio mental na sociedade e se transformou numa das maiores autoridades do assunto. Os livros que lançou estão esgotados.



Perfeito Fortuna recebe o

Prêmio “Destaque Cultural”

Joaquim “Gente Boa”

o de “Amigo do Rio Antigo”


O produtor Cultural e presidente da Fundição Progresso Perfeito Fortuna, pelo conjunto da obrae pela obra em seu conjunto recebeu o prêmio “Destaque Cultural do Rio Antigo”.


A Fundição Progresso, administrada por Perfeito, é hoje um dos principais espaços culturais da cidade e muito mais que uma casa de show ali são realizados diversos cursos e possibilidades profissionais para estudantes da rede pública nas mais diversas áreas.


Além disso, Perfeito se preocupa com a preservação da memória de nossa cultura. No período de carnaval, por exemplo, na Fundição, se realizam cursos de fantasias e adereços. No período de festas juninas, são realizados cursos de gastronomia que ensina aos interessados a prepararem comidas típicas,como arroz doce, quentão, bolo, paçoca.


Joaquim Ferreira dos Santos, que escreve diariamente a coluna “Gente Boa”, no Jornal O Globo é uma unanimidade entre comerciantes, empresário e moradores do Centro. Por sempre colaborar com o bairro recebeu o troféu “Amigo do Centro”.



Um brinde ao

Capital Cultural


Elói Ferreira

*Presidente da Fundação Palmares e

Ex-Ministro das Relações Raciais



“Quero brindar de forma muitacarinhosa ao Jornal Capital Cultural. Lembro muito bem do início do Jornal e fico muito honrado em saber que ele existe econtinua circulando. Quantos conseguiram se manter em pé? Era um jornal pequenininho, com poucas páginas e hoje vejoeste jornal como exemplo de vitória.


O Capital Cultural se tornou umveículo necessário para o Centro da cidade e consequentemente para a população carioca.E digo mais: ao longo destes anosli diversas entrevistas, matérias e reflexões com pessoas que atuam em prol das questões relacionadas à cultura, à política, àcidadania e à igualdade racial, e não tenho dúvidas, que isso colaborou para termos um país com mais igualdade e menos preconceituoso.


O jornal sempre procurou trazer informações sem sectarismo, sempre procurou elogiar e criticar a administração municipal e os diversos cenários da sociedade carioca de forma muito isenta e isso merece reconhecimento, respeito e elogios. Acompanhei de perto o processo de construção e do êxito deste jornal e percebo que a sua trajetória é semelhante à da população negra na sociedade brasileira. É sempre muito difícil. O jornal e você, Virgílio, muito particularmente, representam este sonho de deixar a senzala e ingressar na casa grande”.



Depoimentos


Thiago Alvin

Proprietário do Carioca da Gema


“Tenho muito orgulho que esse prêmio seja realizadoaqui no Carioca da Gema. O Jornal CapitalCultural sempre foi umparceiro de todas as casas do Centro epor sua credibilidade se transformou no órgão que representa nossa voz e nossos anseios. É um veículo que se tornou indispensável e de suma importância para o Centro da cidade. Como dizemos muito carinhosamente: é o nosso jornal”.



Deborah Cheyne

Presidente do Sindicato dos Músicos.


“Temos muito orgulho de sermos parceiros do Jornal Capital Cultural. É um jornal feito com seriedade, que atende aos anseios dos músicos, que nos deixa muito bem informados sobre a produção cultural e os problemas do Centro da cidade. Todos do Jornal, muito especialmente o Virgílio, estão de parabéns. Vida longa ao Capital Cultural”



Áurea Martins

Cantora


“Não há o que falar. Apenas agradecer ao Virgílio não só pelo troféu, mas principalmente pelo carinho, pela atenção a nós que trabalhamos com a música e, principalmente, parabenizá-lo pelo trabalho que realiza. É uma pessoa muito querida, e tenho orgulho em ser sua amiga”.






Moyséis Marques


Cantor e compositor.


“Desde o início de minha carreira sempre tive no Jornal Capital Cultural um veículo que me apoiou e divulgou meu trabalho. É bom vivermos numa área culturalmente tão intensa, com muitas possibilidades e, termos músicos, casas, empresários e um jornal que divulga nosso trabalho. Sou grato pelo espaço que sempre me deram e do fundo de meu coração, torço para que o Jornal obtenha cada vez mais sucesso e me coloco à disposição do jornal para o que precisarem”.



Jards Macalé

Cantor e compositor


“Se num passado recente enfrentamos um tempo pesado e sombrio, com os militares, te mos que ficar atentos, pois agora vivemos um tempo muito esquisito, onde não entendemos direito o que esta acontecendo. Mas estou feliz com esse prêmio. Achei a idéia genial que, poderia até se transformar numa grife chamada“Orgulho Carioca”, pois na medida em que envelheço descubro cada vez mais que meu negócio é mesmo o Rio de Janeiro. Estou cada vez mais apaixonado por essa cidade e fico contente que tenhamos um jornal que fala de nossa cidade de forma tão carinhosa”.



Noca da Portela


Cantor e compositor


“Gosto muito deste jornal. O Virgilio, muito especialmente, é uma pessoa atenciosa, simples e que nos atende com muito carinho. Desejo a ele e a todos do jornal toda felicidade do mundo. É um jornal que fala sério e não fica brincando com a notícia e nem puxando saco de ninguém. Tomara que cresça e prospere cada vez mais, pois precisamosde veículos assim”.



Paulão 7 Cordas

Violonista e Produtor Musical


“Fico muito feliz por este prêmio e ainda mais feliz por recebê-lo das mão do Virgílio que é uma pessoa da qual eu tenho prazerde ser amigo. Vejo sua luta e admiro seu trabalho.Gosto do Jornal, acho um importante veículo de comunicação para a cidade e muito especialmente para o Centro e Santa Teresa e, me colocoà disposição para o que precisarem. É muito bom ver pessoas que realizam trabalhos com coragem, dignidade e seriedade”.



Leo Feijó

Grupo Matriz

“É bom termos um jornal que nos divulga, que fala de nossas casas e que sempre nos coloca informado sobre as coisas que acontecem no Centro. Isso tudo é muito bom,mas melhor que tudo isso, é podermos acreditar em um jornal por acreditamos na pessoa que faz este jornal e pela qual temos grande admiração. Parabenizo ao Virgílio por este belo trabalho que realiza” .



Plínio Fróes

Rio Scenarium


“É uma alegria muito grande participar desta festa, pois essa é a festa de uma pessoa dedicada, corajosa e vencedora. O Jornal Capital Cultural não é mais uma promessa, é uma realidade que há 11 anos circula e nos informa sobre as coisas que acontecem neste território tão particular e tão nosso, que é o Centro da cidade. Fico feliz por termos esse veículo, na verdade um pouco da extensão de cada um de nós.

Prosperidade ao Capital Cultural”.



A “Nova Lapa” cultua

seus heróis, artistas e cabeças


Por Luis Turiba

Jornalista



O bairro boêmio da Lapa deu uma paradinha no início da noite da última terça-feira, dia 26, para refletir sobre seus feitos efeitos e agitos e, também – afinal, ninguém é de ferro - para fazer um cafuné na própria cabeça e dourar o próprio ego, pois se ninguém faz nos fazemos por nós.


A festa foi no Carioca da Gema, tradicional casa de show da Rua Mem de Sá, onde o jornalista Virgílio de Souza, editor do Jornal Capital Cultural, entregou um singelo e significativo troféu – um bondinho passando por cima dos Arcos - para um monte de gente importante no pulsar cultural da Lapa.


Estive lá a convite do cantorMakley Mattos, uma das atuaisvozes do histórico bairro, e curti muito a celebração. Ali, naquele mesmo ambiente comandado por Thiago,a gente se esbarra e encontrava com Noca da Portela, Dorina,Perfeito Fortuna,Paulão Sete Cordas,Áurea Martins, Pedro Ernesto do Bola Preta e Macalé que levou o troféu “Orgulho Contemporâneo”, um dos mais elevados da noite .

No seu “pronunciamento”, Macal foi logo avisando: “o Brasil está esquisito pra caralho, mas vamos continuar construindo uma nação”. Outro que fez “pronunciamento ” avançado foi Perfeito Fortuna, responsável pela instalação do Circo Voador na Lapa e depois pela Fundição Progresso. Ele é o tal tem nome e sobrenome de alto astral e faz justo a marca que lhe deu vida.“É isso! Quero que todo mundo se dê bem mesmo. As pessoas vieram ao mundo para se dar bem e que sejam felizes. Comigo não tem esse negócio de puxar pra baixo não”.

Foi aplaudido depé e no final ainda ganhou de Virgílio um arranjo de plantas com sete ervas protetoras. Salve Virgílio, que você continue em vigília pela sonora e dançante Lapa.


Melhores Shows de 2010


Pelo oitavo ano consecutivo o Jornal Capital Cultural elege os melhores shows realizados nas principais casas do Centro Histórico do Rio de Janeiro. Ao contrário da escolha dos melhores espetáculos do a no que acontecem em alguns veículos de comunicação, o Corpo de Jurados convidado pelo Capital Cultural em cada uma das casas, é composto por pessoas diretamente ligadas a essas casas. Nosso júri é formado por proprietários e funcionários de cada uma desses espaços, num universo que compreende produtores culturais, iluminadores, garçons, músicos e demais pessoas ligadas diretamente a cada uma das casas.


Face a pluralidade e a qualidade musical encontrada no Centro da cidade, em momento algum pensamos em eleger o melhor show dentre todas as casas. Estamos convencidos de que pelo número de shows que cada uma dessas casas apresenta anualmente, ser escolhido o melhor, já se constitui numa grande vitória.


Este ano, se somadas todas as casas, computamos um núm ero de 265 votantes. Um número expressivo e altamente relevante. Quer emos parabenizar aos vencedores, desejar sorte em suas respectivas carreiras e aguardar o próximo ano, quando esse júri muito especial, mais uma vez estará elegendo os melhores de 2011.


Prêmiação Especial

Troféu Orgulho Contemporâneo
Jards Macalé e Paulo Amarante

Moacyr Luz recebeu com um ano de atrado seu troféu, uma vez que apontado como o melhor show realizado na Gafiera Estudantina em 2009

Excelência Musical

Paulão 7 Cordas e Zé da Velha

Destaque Cultural
Perfeito Fortuna


Amigo do Rio Antigo
Joaquim Ferreira dos Santos

Premiação Especial
Troféu concedido pelo Sindicato dos Múisicos
Grupo Semente por ter sido um dos pioneiros na renovação musical no Centro do Rio Antigo (Na foto, Deborah Chaenne do Sindicato dos Músicos e Thiago do Grupo semente)


Melhores Shows de 2010


Café Cultural Sacrilégio


Formado em 1996, o Grupo Roda de Bamba vem se firmando nas muitas casas que se apresenta e já começa a ser apontado como uma das principais atrações e uma das maiores revelações do samba carioca. No Sacrilégio, foi apontado como o melhor show realizado em 2010.


Sempre com um repertório variado e em sintonia com o público , o Roda de Bamba, além de composições próprias, canta sucessos de Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal , Beth Carvalho, Martinho da Vila, Arlindo Cruz e Paulinho daViola, e realiza ainda, releituras para sucessos de Marcelo D2, Seu Jorge e João Bosco dentre outros. Na segunda colocação ficou o Grupo Bohemia Carioca. Na foto, Lucas proprietário do Sacrilégio, entrega foto ao representante do Roda de Bamba.


Carioca da Gema


Apontado como uma das grandes revelações do samba carioca Moyséis Marques foi indicado como melhor show realizado no concorrido palco do Carioca da Gema. O cantor e compositor já gravou dois CDs , o primeiro, o álbum homônimo “Moyseis Marques” em 2007 pela Deckdisc, eo segundo, “Fases do Coração”, em maio de2009. Do segundo disco, viu explodir nas paradas a música “Pretinha Jóia Rara”, de sua autoria e que fazia parte da trilha sonora da novela “Caminho das Índias”, da Rede Globo.


Apesar de ainda jovem Moyseis já fez história no universo musical carioca. Foi fundador das bandas “Forró na Contramão” e do Grupo Casuarina. Participou ainda, das bandas “Casa Quatro”, “Rio Maracatu”e “ Tempero Carioca”. O projeto de sua autoria, denominado “Moyseis Marques e a família” revelou as cantoras Patrícia Oliveira e Elisa Addor. Na segunda colocação com o mesmo número de votosterminaram empatados Richars e Ana Costa e Luiza Dionísio

Centro Cultural Carioca
No Centro Cultural Carioca o grupo apontado como aquele que realizou o melhor show de 2010 foi o Sururu na Roda. O grupo que surgiu em 2000 em encontros nos jardins da UNIRIO, ganhou experiência, qualidade musical e, dez anos depois, se firmou como um dos principais destaques no universo do samba no Rio de Janeiro.


Uma das grandes marcas do grupo é sua sonoridade que expressa diferente nuance de timbres. Isso ocorre com muita naturalidade pelo fato de seus integrantes serem cantores e instrumentistas, cada um proveniente de um contexto musical diferente, trazendo para o grupo sua bagagem e suas influências. O resultado é uma grande mistura dos gêneros da música brasileira e uma verdadeira miscigenação musical. Na foto, Isnard Manso, um dos sócios do Centro Cultural carioca entrega o troféu a Nize Carvalho, do Sururu na Roda.

Circo Voador




O cantor e compositor Marcelo D2, que decidiu fazer uma homenagem ao inesquecível e saudoso Bezerra da Silva, foi apontado como o melhor show realizado no Circo. Irreverente e autor de músicas polêmicas que sempre retratam questões sociais, Marcelo D2, cria da Lapa, como ele mesmo coostuma dizer, se tornou um dos principais no mes da música brasileira.

Vencer no Circo Voador é sempre uma façanha especial em razão da variedade e da qualidade musical dos grupos que ali se apresentam.

Cordão da Bola Preta

A cantora Áurea Martins é um desses nomes que em se tratando de qualidade musical dispensa comentários. É reconhecida e apontada por figuras consagradas e estudiosos da MPB, dentre eles, Hermínio Belo de Carvalho e também por praticamente todos os jovens valores do samba da cidade como uma de nossas principais cantoras e uma das vozes mais belas no cenário da música nacional.


O Show que realizou no Cordão da Bola Preta em homenagem a Elizeth Cardoso, foi apontado quase que por unanimidade como o melhor realizado naquela casa em 2010. Com dois discos gravados e hoje se apresentando ao lado da Orquestra Lunar, Áurea Martins, com seus 68 anos, continua sendo umas das musas de nossa música e sempre realizando apresentações memoráveis.

Estudantina Musical

Cantora reconhecida e de grande

prestígio Dorina foi apontada como o melhor show realizado em 2010 na Gafieira Estudantina Musical. Cantora conceituada e com um aprendizado que se iniciou nos blocos carnavalescos do subúrbio, lançou em 1996 seu primeiro disco, “Eu Canto Samba”, que recebeu o prêmio Sharp daquele ano na categoria Revelação Samba.


O segundo CD, “Samba.com”, saiu em 2000, desta vez com direção musical de Paulão 7 Cordas. No momento Dorina trabalha o lançamento de seu mais novo trabalho, o Cd “Brasilieirice" que vem sendo muito elogiado pela critica e pelo público.


Outros momentos marcantes na carreira foi a participação no “Coisas Nossas” (tributo a Noel Rosa) e, posteriormente, o show “De Paulo a Paulinho”, contando através de sambas a história da Portela, de Paulo da Portela e Paulinho da Viola. Além disso, foi uma das criadoras do Bloco Suburbanistas, onde se apresentava ao lado de Mauro Diniz e o memorável Luis Carlos da Vila.

Fundição Progresso


Num ano em que passaram grandes atrações nacionais e internacionais pela Fundição Progresso, Lenine que realizou uma apresentação esplendorosa e marcante, foi apontado como o melhor show do ano, na casa.


Considerado um dos maiores valores da música brasileira o cantor dispensa comentários em razão de sua trajetória profissional e de sua qualidade musical, demonstrou no show que vem se renovando a cada trabalho e mantendo o prestígio junto a seus muitos fãs.


Mangue Seco

Preservar as raízes culturais do mais verdadeiro e genuíno samba. Esse o objetivo principal da Turma do Estácio, escolhida como melhor grupo do ano na Cachaçaria Mangue Seco. O grupo que se apresenta em diversas casas da cidade vem obtendo grande sucesso. Formado no Estácio, um dos principais berços do samba carioca trazem no variado repertório nomes que fizeram e fazem parte da história de nossa música, como Candeia, Cartola, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Nelson do Cavaquinho dentre muitos mestres.


O primeiro Cd lançado pela Turma do Estácio e intitulado “Turma do Estácio canta a Essência do samba” obteve grande sucesso e tem sido responsável pelo sucesso que o grupo vem obtendo. A Turma do Estácio é também responsável pela parte musical das festividades da G.R.E.S. Estácio de Sá.


Mistura Carioca

O cantor e compositor Noca da Portela foi apontado como o melhor show realizado no Mistura Carioca. Um dos nomes mais conceituados do samba brasileiro Noca sempre encanta em suas apresentações. Pertencente a ala de compositores e um dos principais nomes da Azul e Branco de Madureita e um compositor festejado também blocos da cidade – já ganhou samba em praticamente todos eles. Com vários discos gravados Noca vive viajando e se apresentando em diversas cidades do país onde sempre ontem muito sucesso.
Na segunda colocação ficou Aninha Portal


Parada da Lapa

Reinaldo “O Príncipe do Pagode”, que já havia vencido como melhor show da casa em 2009, pelo segundo ano consecutivo é apontado como o melhor show realizado na Parada da Lapa. O casamento entre a casa e o cantor acabou sendo perfeito. Ele sempre se renova em suas apresentações, conseguindo, com isso, além de manter um público fiél ver seus fãs e admiradores se renovarem permanetemente.

Rio Scenarium


Considerado o melhor e mais popular grupo de Brasília o Grupo Samba Choro já tinha dados prova de sua excelência musical quando obteve a segunda colocação na eleição realizada em relação aos melhores shows de 2009, realizada no Rio Scenarium, uma das casas de maior prestígio do Rio de Janeiro. A competência musical do Grupo pode ser comprovado na eleição das melhores apresentações de 2010, quando o Grupo saiu como vencedor.


Uma coisa é certa: musicalidade é que o não falta ao grupo que apresenta sempre um repertório de altíssima qualidade recheado de sambas e choros marcantes em nossa música. Na foto, Marcus, representante do Samba Choro, com troféu na mão e Thiago do Carioca da Gema

Teatro Rival

A alegria, o carisma e energia de Mart’nália encanta por onde quer que ela passe. Seus shows sempre animados e com um repertório de primeira qualidade garantem excelentes apresentações. Exatamente por sua presença de palco e sua qualidade musical a cantora foi a escolhida como o melhor show no Teatro Rival. Uma vitória significativa e expressiva em razão da excelente programação da casa que, apresentou alguns dos principais nomes de nossa música, dente eles, João Bosco, Elza Soares, Beto Guedes, Arlindo Cruz e Geraldo Azevedo, dentre muitos outros.


A trajetória da cantora vem num crescente a cada trabalho que realiza. No momento acabou de gravar o CD ( Mart’nlia em Africa ) que vem obtendo grande sucesso. Antes disso, gravou: Mart’nália (1987); Minha Cara (1997); Pelo Meu Samba(2002); Mart’nália ao Vivo ( Cd 2004) e (DVD 2005); Menino do Rio (2005); Mart’nalia ao Vivo em Berlim CD/DVD (2006; Madrugada (2008).

Teatro Odisséia

Em 2006, um grupo de batuqueiras, a maioria vinda de blocos carnavalescos e oficinas de percussão como o Monobloco, se uniu para fazer uma releitura original do universo musical criado por Chico Buarque. Decidiram interpretar suas canções dentro de uma estética inusitada, com destaque para a formação instrumental tradicional das Escolas de Samba. Surgia, desta forma, o grupo Mulheres de Chico, que passou a fazer grande sucesso na cidade e este ano foi apontado como melhor show realizado em 2010, no Teatro Odisséia.


O grupo se firmou como um bloco no carnaval de 2007, quando aquele grupo de mulhres batuqueirasieiras pegou a contramão da hegemonia masculina no mundo do samba, e decidiu participar do carnaval. Naquele ano, o Mulheres de Chico despetou a atenção dos foliões que assistiram e participaram do primeiro desfile, que aconteceu no estilo concentra-mas não-sai. Desde então, o grupo feminino vem recriando a obra de Chico, e, conseguindo ganhar, com isso, grande visibilidade. Nas apresentações do grupo, é explorado fundamentalmente ritmos nacionais como o samba, o ijexá, o côco, o jongo, a marchinha e até mesmo o funk carioca.

Trapiche Gamboa

O Grupo Galocantô, um dos que mais se firmou na cidade nesta renovação do samba carioca foi apontado como vencedor no Trapiche Gamboa.
O passaporte para o sucesso do Grupo veio em 2006, com o lançamento do primeiro CD, intitulado “Fina Batucada”. A qualidade musical era de tal grandeza, que o Galocantô, foi indicado ao Prêmio Tim 2007 na categoria “Melhor Grupo de Samba”. Avalizado com participações de bambas como Beth Carvalho, Arlindo Cruz e Rildo Hora, além da especialíssima Velha Guarda do Império Serrano.


Atualmente o grupo trabalha a divulgação do Cd “Lirismo do Rio”, com canções inéditas, muitas de autoria dos componentes do Galo e outras de nomes consagrados do mundo do samba.

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Que Merda É Essa?


Que Merda é Essa?


Virgílio de Souza


Camisa desenhada por Ziraldo para bloco da Zona Sul, que traz Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, remete ao discurso da eugenia do escritor, causando insatisfação em lideranças do movimento negro, artistas e intelectuais por relembrar uma página infeliz da nossa história.



Troça é bom só em marchinhas.
Quando usamos a troça
para reabrir feridas,
tocar em sentimentos,
tripudiar o passado,
destroçamos o outro.
Não podemos usar o carnaval
para manifestar preconceitos.



A camisa desenhada por Ziraldo para o bloco carnavalesco Que Merda É Essa” é motivo de polêmica neste carnaval. O cartunista, talvez por ingenuidade, talvez por maldade, ou, quem sabe, por ignorar a seriedade da questão, desenhou o escritor Monteiro Lobato abraçado a uma mulata. Uma idéia infeliz, pois não se brinca com uma das maiores feridas da sociedade brasileira e uma página infeliz de nossa história, que é o preconceito racial.


Pesquisadores, escritores e lideres de movimento negro consideraram de péssimo gosto a brincadeira, se manifestando através de várias mensagens por e-mails e pela rede social. O texto mais contundente foi um depoimento de Ana Maria Gonçalves, autora do livro “Um defeito de cor”.


A autora se une a outros estudiosos das relações raciais que, apesar de reconhecerem a genialidade de Monteiro Lobato, afirmam que ele era assumidamente preconceituoso e que achava negros e mulatos uma sub-raça, chegando mesmo a se mostrar um eugênico de carteirinha em algumas ocasiões.


Na carona da polêmica, algum “mancha-chuva” do Jornal O GLOBO aproveitou para se manifestar. O jornal que sempre se opôs às chamadas “políticas de ações afirmativas” e mais especialmente ao sistema de cotas, mais uma vez abordou o assunto de maneira facciosa. Argumentar que no Brasil não há racismo, e sim um problema de ordem social é a principal tecla que O GLOBO insiste em bater.


Na edição da última sexta-feira, dia 25, O GLOBO publicou uma pequena nota intitulada “Abaixo o Carnaval”. O texto critica o comportamento de quem se opõe ao desenho de Ziraldo trazendo a seguinte afirmativa: “Essa turma critica Ziraldo e o bloco. Não surpreende, devido à visão estreita da sociedade brasileira derivada da ideologia racialista. Ela se sustenta na filosofia do ‘politicamente correto’, maneira mal humorada de se viver a vida. Um dia comissários vigiarão as ruas para reprimir fantasias de índios, referências a ‘negões’ e ‘neguinhas’, cortar letras de sambas e marchas irônicas e debochadas.


O que mais incomoda nesta matéria de O GLOBO é saber exatamente quem seria essa “turma racialista de visão estreita”. Sempre que essas discussões acontecem, quem sempre se posiciona de maneira favorável às políticas de ações afirmativas são pesquisadores de instituições conceituados, como, por exemplo, Marcelo Paixão, da UFRJ; Carlos Alberto Medeiros, Secretario da Igualdade Racial-RJ; Júlio Tavares, da UFF, e muitos outros. Ao que parece, o “manda-chuva” de O GLOBO, não sabe que já existem negros doutores e mesmo pós doutores, e são muitos e nas mais diversas atividades. Seriam eles as pessoas com visão estreita da sociedade brasileira?


Curioso é que na mesma edição do dia 26 de O GLOBO, na página 16, Caderno País, uma reportagem especial intitulada “Mapa da Violência”, assinada por Demétrio Weber, mostra números curiosos: neste mapa da violência no Brasil, os negros são mais assassinados que os brancos. Em 2008, foram 32.349 negros mortos contra 14.650 brancos, mais que o dobro. Seria um problema social, racial, ou socialmente racial?


Como revelam as pesquisas de diversos estudiosos da UFRJ, UFF e USP, dentre outras instituições, O GLOBO, em seus editoriais, notinhas, matérias e entrelinhas, sempre coloca-se contrário às políticas que possam beneficiar aos negros que, historicamente e socialmente, formaram a base da pirâmide da miserabilidade, da massa carcerária, das favelas, dos excluídos, das palafitas.

A linha editorial de um jornal é uma questão de opção. As opiniões emitidas em O GLOBO, por ser um jornal que forma opiniões, deveriam ser de informação e não de manipulação da informação. Não é possível chamar quem é favorável às políticas de ações afirmativas, aos defensores do sistema de cotas e os que criticam Monteiro Lobato e consequentemente ao caricaturista Ziraldo de “turma racialista de visão estreita”. Isso soa mais como provocação e não parece correto, ético e profissional.


Talvez o que esses profissionais de O GLOBO que tentam desqualificar seus opositores não tenham percebido é que o negro há muito saiu da senzala e já ocupa os cômodos da Casa Grande. Que os negros ficaram cansados de serem coadjuvantes, que já não desejam mais ser objeto de estudo e, por isso, resolveram se “doutorar” na Academia para estudar o comportamento desta eugenia ainda existente em algumas mentes insanas que insistem em se fazer presente.


Seguramente estes acadêmicos e muitos intelectuais e simpatizantes das políticas compensatórias questionam: Que Merda é Essa? Onde essa turma do “racionalismo” do Jornal deseja chegar? - O que esta acontecendo?


Não vamos brincar com a chaga alheia. Não respeitar a dor de anos de sofrimento, de segregação, de discriminação, de não direitos, de não oportunidades é, sim, politicamente incorreto. Reproduzir o discurso de eugenia de Monteiro Lobato estampado na camisa do bloco e desenhado por Ziraldo é no mínimo alimentar a dor e a mazela de um passado que muitas pessoas de “visão curta e estreita” não querem enxergar.


Mas aqueles que olham e conseguem ver o que se esconde por traz deste deboche sentem a dor e a indignação do discurso da “democracia racial”, da desfaçatez dos que acham que “não somos racistas”. Sentem a dor e se manifestaram e se manifestarão, mesmo pela necessidade de mostrar que a visão não é tão estreita assim.




Carta aberta de Ana Maria Gonçalves

autora do livro “Um defeito de cor” a Ziraldo


Caro Ziraldo,


Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou:

"(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).


Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de o­nde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".


Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não veem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros.


Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois:

“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".


Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel:

"Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros."


Tempos depois, voltou a se animar:

"Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos".


Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas idéias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa:

"Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".


No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a conseqüência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura o­nde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.


O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas Secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito:

"O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.


A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo:

"O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).


Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.


Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das o­nças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos:

"(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”.


Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.


Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz:

"Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais."


É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente.

Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.


Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, o­nde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”.


Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos:

"Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços o­nde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva."


Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto.

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